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INTUIÇÃO. CONTINUIDADE. HARMONIA.

 

A placidez e serenidade que se colhem dos trabalhos de Bela Branquinho são qualidades pouco frequentes.

Eis algo que nos surpreende pela coerência de linguagem e pela serie(alid)ade da obra. É que, contrariamente ao que é costume em experimentações que decorrem de uma vontade de expressão pura e até selvagem, Bela fez já a sua reflexão – em grande medida uma reflexão interior – escolhendo um caminho para exprimir a sua vontade de forma e cor.

A técnica que usa não é expansiva, não é a dos telões com grandes superfícies preenchidas de cor – de óleos e de acrílicos expressivos, ou mais do que isso, expressionistas.

Pelo contrário, Bela transpõe para a tela uma rede tendendo para o infinito, de quadrados e trapézios, formados por uma grelha base, impressa, ou pura e simplesmente desenhada à mão, com uma paciência e um cuidado imenso. O preenchimento de cada pequeníssima superfície é feito a aguarela, quadrados, trapézios: um por um, sem remissão, e usando cores suaves, intermédias, nunca cores directas ou planas. As dominantes cromáticas são controladas (os anis, os rosas, os verdes “aqua”, azuis), numa gama de gradações que criam um efeito de continuidade harmónica, algo que confere a cada quadro uma personalidade própria, ao ponto de, nestas variações, poder construir séries como as das “Quatro Estações”, ou “(Re)construção” “Construção”.

Há neles um vai e vem, um movimento, como se se nos apresentasse uma paisagem interior, na qual projectamos a nossa volição, a nossa vontade de “ver”. Os limites de cada quadrado, de cada elemento geométrico (por exemplo, as fitas vegetalistas de “Caminhos”, ou de “O outro lado do vento”) nos arrastasse para uma continuação de que se fica à espera. Que fica suspensa.

Estes jogos de formas convocam outras evidências: naturalmente, as referências que lhe são caras, como por exemplo o amor por Kandinski ou por Paul Klee, onde a presença da geometria descomprometida e algumas vezes informal, abre horizontes da forma. Ou de Piet Mondrian, sempre que este trabalhou os jogos cromáticos no cruzamento de réguas e os marcou com a cor, num ensaio (quase) de física aplicada. Vieira da Silva e os seus “azulejos” também passam por ali, com os seus labirintos profundos e extensos...

Nada disto importa, ou importará precisamente pela razão contrária do que se pode pensar: não são referências “eruditas”, nem nenhum depoimento artístico de ambição –muito menos de imitação. Pelo contrário, são referências líricas que servem para que o jogo de cores e de formas se construa de uma forma intuitiva, em que cada quadro demora meses a elaborar, fica a descansar, e é retomado, num quase automatismo, mas agora disciplinado pela vontade: só que, neste encontro entre os materiais joga-se também um estado de alma, e uma perceptível vontade de dépaysement, de refúgio, um refúgio na pura visualidade, ou não fossem os seus trabalhos abstracções, que podem aqui e ali convocar coisas do mundo, eventualmente reconhecíveis, mas de cuja identificação se encarrega o receptor, projectando neles o que entender.

 

De facto, o título da exposição diz tudo, por que é aquilo que vemos: caminhos, percursos, o longe e o perto. Mosaicos. É isso!: mosaicos.

Há, depois, esse lado curioso, perscrutador, de quem se sente atraído pela pintura.

Bela Branquinho comprara há anos um poster com uma reprodução de um quadro que lhe agradara, antes ainda de dar os primeiros passos neste amorável desígnio da pintura. Para mais tarde se apaixonar pela obra de um autor, diferente na sua expressão das tramas das aguarelas que expõe, mas belíssimo no seu domínio do cromatismo: Richard Diebenkorn. Pois era de Diebenkorn – ela nem o sabia - a obra que esse poster que a acompanhava reproduzia: eis uma perfeita “mise-en-abîme” como dizem os franceses, um retorno ao primordial, e ao encantamento –retorno, desenvolvimento, desmultiplicação e repetição. Reencontro.

Ritmo, fluidez, fractalidade e música serial, eis a banda sonora que pode servir para as aguarelas de Bela Branquinho. Têm som, têm música, estas aguarelas.

Paulo Pereira, Historiador de Arte